Três impressões que não encaixavam: um bloco de tosquia para cães e a regra com que fiquei
Um tosquiador de cães do Algarve escreveu-me pelo WhatsApp com um pedido muito claro. Um bloco para o cão ficar em cima durante a tosquia: 6 por 6 cm no topo, 8 por 8 cm na base, 10 cm de altura. Um sítio no topo para um tapete antiderrapante. E uma tampa cerca de 2 cm abaixo do topo, para o poder encher com areia depois de chegar, porque enviar um bloco pesado pelo país fora custa mais do que enviar um bloco vazio, e um saco de areia na drogaria da terra custa quase nada.
Gostei do pedido. Era específico, tinha uma razão para cada linha, e era o tipo de objeto que ninguém vende.
Esta é a história de como a tampa se recusou a entrar três vezes, e do que aprendi por estar errada três vezes seguidas.
O desenho
Duas peças impressas que encaixam à pressão. Sem cola, sem parafusos.
A base são os 8 cm de baixo: uma casca oca, aberta em cima, com espaço para cerca de 300 cm³ de areia. À volta da abertura levanta-se um ressalto quadrado. A tampa são os 2 cm de cima, com um encaixe quadrado por baixo que desce sobre esse ressalto, e um rebaixo em cima à medida do tapete antiderrapante.
Montadas, as duas leem-se como um só cone de 8 por 8 para 6 por 6. A linha de junção fica no encaixe e desaparece quando a tampa assenta.
Paredes e fundos com 4 mm em toda a peça. É uma coisa em que um cão se põe de pé, não um enfeite.
A pergunta do cliente
Antes de imprimir o que fosse, o cliente fez uma boa pergunta: se o bloco tombar com um cão em cima, uma tampa de encaixe simples pode saltar? Sugeriu uma secção redonda com tampa de rosca.
Pensei na falha a sério. Um encaixe quadrado fundo já resiste bem ao esforço lateral, e não roda de todo, ao contrário de um pino redondo. O risco real é outro: se o bloco cair de tampa para baixo, a areia solta lá dentro martela a tampa por dentro.
Uma rosca defende disso, mas custa mais do que dá. Perde o travão anti-rotação que o quadrado dá de graça, e as roscas são conhecidas por se desapertarem sozinhas com choques repetidos. Precisa também de um ciclo de teste e afinação que uma encomenda única não tem. E abandonava a especificação do próprio cliente, que dizia topo quadrado e base quadrada.
Fiquei no quadrado, aprofundei o encaixe do ressalto (de 10 mm para 13 mm), e acrescentei dois pequenos rebordos de mola ao longo do ressalto. Dois em vez de um: se um defeito de impressão estragar um, o outro segura. Cada rebordo tem uma rampa de entrada suave, para a tampa entrar com facilidade, e uma face de retenção mais inclinada, para resistir a sair. Essa face fica de propósito um pouco abaixo dos 45 graus, para imprimir limpa sem suportes. Um dente mais agressivo agarra melhor no papel e arredonda-se na prática.
Impressão um: a tampa não assentou
O primeiro par saiu da impressora com bom aspeto. A tampa desceu quase até ao fim e parou.
Cantos vivos a 90 graus são o suspeito habitual num encaixe quadrado. A impressora abranda em cada mudança de direção e deixa um pouco de material a mais no canto, por isso o ressalto sai ligeiramente gordo exatamente onde o encaixe sai ligeiramente apertado. Um pino redondo dava a volta a isso; um quadrado não pode rodar à procura de espaço.
Correção: um raio de 3 mm em todos os cantos de contacto, o mesmo raio nas duas peças para a folga ficar igual nos cantos e nos lados, e um pouco mais de folga por lado.
Impressão dois: a tampa não entrou de todo
Corrigi de mais. Mantive a interferência dos rebordos no valor anterior sem a verificar à mão, e dois rebordos tão apertados, tão próximos, encravaram a montagem por completo. Não ficou apertada. Encravou.
Correção: interferência de cada rebordo reduzida a metade, e os dois rebordos mais afastados.
Impressão três: continuou sem assentar
Aqui parei de ajustar e medi.
No modelo exportado, o ressalto tinha 58,00 mm de lado e o encaixe 58,90 mm. Mas à altura dos dois rebordos, o ressalto media 59,20 mm. O ressalto era mais largo do que o buraco. Não apertado. Mais largo. As duas correções anteriores tinham afinado quanto é que os rebordos passavam do furo. A resposta honesta era que qualquer valor era de mais.
A regra com que fiquei
O pico do rebordo cai exatamente sobre o furo. Nunca para lá dele. Zero interferência no modelo.
Parece desistir do aperto, e não é. O aperto vem de onde devia ter vindo desde o início: da impressora. Um ressalto impresso sai um nada acima da medida e um furo impresso um nada abaixo, por isso os rebordos entram à pressão e as faces de retenção seguram, sem o modelo exigir que um encaixe quadrado, rígido e fechado, estique para deixar a tampa entrar.
Há mais uma coisa que corrigi, e é a parte em que continuo a pensar. As minhas próprias verificações tinham passado sempre. O script de construção confirmava que a interferência existia, e o script de verificação de encaixe imprimia FAIL quando não a encontrava. Os dois foram escritos para provar que os rebordos estavam lá. Por isso «fit check: PASS» esteve a certificar o encravamento em todas as corridas.
Testo software há mais de catorze anos. Conheço esta. Uma verificação vale o que vale a premissa dela. Os dois scripts confirmam agora o contrário, e a verificação de encaixe lança raios sobre as peças exportadas para confirmar que o ressalto nunca é mais largo do que o buraco.
O que foi enviado
A quarta impressão assentou à primeira.

Seguiu vazio para o Algarve, como combinado, para ser cheio de areia à chegada. A mensagem do cliente, no dia a seguir a recebê-lo: «as peças ficaram excelentes! Gostei mesmo muito, ficou um trabalho muito bom e super profissional. Recomendo sem dúvida!» E acrescentou que, quando publicar uma foto com elas, de certeza que lhe vão perguntar onde as fez.
Duas peças, nenhuma com suportes. A base imprime-se como está, fundo para baixo. A tampa imprime-se ao contrário, rebaixo do tapete contra a mesa, para as duas cavidades abrirem para cima e nada ter de fazer ponte. Um pequeno bónus: o fundo do rebaixo fica na superfície lisa de contacto com a mesa, que aceita cola melhor do que uma camada de topo.
Porque te conto isto
Porque é isto que «testado antes de sair» é, visto de dentro. Não é um carimbo numa ficha de produto. São três impressões em cima da mesa, uma régua, uma suposição errada encontrada e escrita para não voltar.
Se tens uma peça que já ninguém faz, ou um objeto que só existe como descrição numa mensagem de WhatsApp, é por este processo que ele passa. Escrevi a versão geral em como faço engenharia inversa a uma peça partida e a visão de conjunto no guia de impressão 3D por encomenda. Se queres alguma coisa feita, o caminho mais curto é uma mensagem com as medidas e a razão. A razão importa mais do que as pessoas esperam. Foi por ela que soube que a rosca era a resposta errada.
Dr3amToReal, Aveiro. Não é uma fábrica de impressões.